Design do poder em Cyberpunk 2077
27 Set 2026Em Cyberpunk 2077, a cidade de Night City tem uma gramática visual que eu me amarro e ela é bem curiosa. E se tu aprender ela, percebe que não se trata só de uma estética visual, mas também de uma hierarquia de poder. Existem quatro estilos que são desenvolvidos pela CD e elas estruturam o jogo. A arquitetura, a moda, os veículos, todos os objetos, tudo. Não são apenas categorias de design, mas também idiomas de classe e que cada distrito da cidade tem o seu. O entropismo, por exemplo, é o mais brutal de todos, o lema é necessidade acima do estilo. É basicamente o idioma da periferia e dos espaços que foram abandonados à mercê depois da quarta guerra corporativa. Aqui os materiais são baratos, as formas angulares estranhas, as paletas de cores geralmente acinzentadas e quase sem decoração. Mas isso não é uma ausência de beleza por um descuido ou desleixo, mas é a necessidade de não poder se dar o luxo à beleza. Quem vive nessas áreas constrói com o que tem e conserta o que sobra, formando uma espécie de design de sobrevivência.
O kitsch tá no meio de campo e representa uma rebeldia contra a austeridade. Basicamente, é uma explosão de cores, plástico polido e cromo que preencheu as ruas quando a poeira baixou e as coisas começaram a ficar um pouco menos ferradas depois da guerra. É um estilo que permeia toda a Night City, mas definitivamente uma linguagem visual de fronteiras entre esses distritos. Essas cores vibrantes, formas arredondadas, implantes que são usados como acessórios de beleza, transformam o kitsch em um estilo acima de substância, que é basicamente a beleza acima daquilo que importa. É um grito de visibilidade que mostra como ali tem uma galera que tenta se infiltrar e crescer dentro do capitalismo sangrento, mesmo na base da força. O neo-militarismo, ele é cabuloso e silencioso. É o estilo das corporações, estruturas monolíticas, duras e de certa forma também mortas. Os materiais eles comunicam poder sem precisar de enfeite. O Corpo Plaza na cidade acho que é o exemplo perfeito disso. Cada edifício é um atestado de força e extremamente intimidante. É um design que controla de forma curiosa e transforma até a beleza em um tipo de hierarquia.
O neo-kitsch, um pouco mais distante, é uma linguagem da ultra-riqueza. Ele é tão colorido quanto o kitsch, mas preenchido pela grana. E ele é interessante, pois ele explora mais do que o valor do metal precioso, mas algo mais luxuoso e raro nesse futuro distópico, que é a natureza. Esses espaços são um dos raros locais onde você encontra plantas, animais, materiais orgânicos, mesmo que sejam clones ou réplicas, imagina um futuro tão sintético que é bizarro pensar que uma árvore pode ser um símbolo de status, ou uma iguana, e tudo isso é um atestado de poder. Quando você atravessar a cidade pela primeira vez ou quando você voltar nela, repare nisso. Não há uma divisão explícita apenas baseada em grana, mas é explícita por essa linguagem esquisita que determina tudo: do teto sobre a sua cabeça à roupa que tu coloca pra impressionar, pra curtir ou simplesmente por ser essencial pra você sobreviver nessa distopia.