Existir ou não? Serial Experiments Lain

27 Set 2026

As pessoas só ganham substância nas memórias dos outros. Serial Experiments Lain é uma obra complexa e as obras que flertam com o onírico e abstrato, elas tendem a abrir mais portas do que fechar. Mas o que eu quero trazer aqui é algo mais sensorial, meio que uma reflexão pessoal que talvez você concorde ou não. Sobre o mundo hoje, a partir da questão existencial que o anime levantou em 98 e que parece só ficar cada vez mais relevante com o tempo. Nessa época, a internet era mato. As redes sociais não existiam, mas ideias sobre um espaço virtual de coexistência já vinha sendo explorado há muito tempo. E no anime, a vida online, que reflete muito o que a gente vive hoje, acontece dentro de uma rede chamada Wired. E o que a gente vê no trecho que eu usei pra introduzir esse vídeo, que é uma fala da Lain, é basicamente um questionamento que desfaz o eu como algo único. Você não é apenas você, é você do Instagram, você do TikTok, você do trabalho, você de casa, e assim segue. A identidade é fragmentada, distribuída, reconstruída a cada vez que outra pessoa te percebe, te vê, interage contigo. Você não é só uma coisa, mas versões diferentes de si mesmo, que com a rede, vivem simultaneamente na memória e na percepção das pessoas que te conhecem.

Isso toca diretamente na ideia de hiper-realidade de Jean Baudrillard. Se você observar o seu comportamento online, a distinção entre o que é real e o que é representação já tá em xeque há muito tempo. Você possui várias cópias suas que são tomadas por quem te conhece como você real. No Instagram ou TikTok, o seu perfil não é um reflexo de quem você é. Ele é o que você é, ou melhor, o que você projeta ser. Suas fotos editadas, stories, interações, tudo isso é um simulacro e que tem até uma lógica própria, que independe de você, você. Por exemplo, se você acorda de mau humor ou fala alguma besteira e isso não tá postado, de certa forma pra quem te conhece ali, isso nunca aconteceu. E esse simulacro, Baudrillard diria que não representa mais uma realidade, mas ele substitui essa realidade. Você do Instagram acaba se tornando mais real do que você, você.

Isso é muito curioso, porque em Lain, a lógica é exatamente essa. A versão dela na Wired agia de formas que ela não reconhecia e não tinha memória. Assim como a Lain de casa era diferente da Lain da escola, e por aí vai. E pensar nisso fica ainda mais complexo, mas ainda assim interessante, quando a gente volta na questão inicial onde a nossa existência acontece a partir de quem nos percebe; no meio de tantas versões, a Lain original ou você original, será que ainda existem? Se pegarmos a partir de Baudrillard, diz que a origem acaba se perdendo, as virtualidades assumem novas origens e vão com o tempo se fragmentando ainda mais. Mas, se a versão de mim que as pessoas veem, não corresponde com quem eu sou, então quem sou eu? Pra Lain, essa resposta poderia ser: ninguém ou nenhuma delas, talvez isso sirva pra nós também. A gente vive existindo em tantos espaços e de tantas formas, que talvez o nosso verdadeiro eu esteja em algum lugar entre o que a gente projeta e o que as pessoas percebem, um espaço que curiosamente nunca vamos conseguir habitar inteiramente.

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