Gênero fluído + cyberpunk

27 Set 2026

Gênero fluido e cyberpunk nunca tiveram uma tensão tão forte quanto hoje, só que nem sempre rolou dessa forma. Cyberpunk não é um gênero que tenta necessariamente prever um futuro, mas ele reflete as angústias do seu presente, e a cada década ela se atualiza pra criticar o próprio tempo. Em 84, com o Neuromancer, a identidade já estava em jogo, e a carne virava cromo, o corpo se tornava uma nova interface, mas o gênero ainda tava ali, intocado. A estética toda ainda nascia sobre uma masculinidade bem óbvia. No livro Cyberpunk Women Feminism and Science Fiction, Carlen Lavigne chama essa primeira fase de algo que, irremediavelmente, é heterossexual. Ou seja, subverteram a carne, mas a moral da época ficou intacta. Só que a cultura não é algo definitivo, e ela tá sempre em construção, e a gente precisa dessas novas representações pra se reconhecer, pra ter empatia e também pra dar sentido pra vida. Ali em 85, o Manifesto Ciborgue de Haraway já imaginava o ciborgue como uma criatura e o mundo sem amarras de gênero. Mas foi só nos anos 90 que novas autoras como Pat Cadigan colocaram a fluidez no centro das histórias e essa ideia deixou de estar apenas nas entrelinhas. Tem quem diga que isso já acontecia antes, mas se a gente pegar obras clássicas como Ghost in the Shell, onde a Major tem um corpo cibernético e supostamente fluido, ainda fica muito evidente o olhar masculino que a Laura Mulvey descreveu lá nos anos 70. A câmera continua objetificando os traços femininos, do mesmo jeito que ela sempre fez. A ideia da subversão de gênero era só um tipo de verniz.

Mas hoje é diferente, e a fluidez virou um design de verdade. Cyberpunk 2077, por exemplo, chegou a trocar a palavra "gênero" por "tipo de corpo" no criador de personagem. Não é muita bosta, mas é uma semente plantada dentro de uma produção AAA fodida e abrindo diálogos. Pensar em gênero fluido pra mim também sempre esbarra na tatuagem, que é a forma mais antiga de construir identidade a partir do próprio corpo. É meio que a mesma busca, se encontrar, se reconfigurar e achar quem se parece com você. E hoje essa busca é potencializada pela liberdade de transitar entre identidades sem fronteiras, o tempo que for necessário e do jeito que fizer sentido pra cada um. Com todo mundo criando e pensando junto, ao mesmo tempo, em qualquer lugar, eu acho que essa busca nunca teve tão acelerada.

Mas também o que eu acho interessante e que eu tenho pensado muito é algo que tá um pouquinho além. Talvez seja o nosso Cyberpunk. Isso tudo faz sentido enquanto a gente ainda tem um corpo. Mas e quando a gente for apenas pixels dentro de um sistema?

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