+Punk no cyberpunk de SPINE
07 Out 2026O cyberpunk ficou preso no passado? Pensa comigo: quando a gente fala do gênero, vem direto na cabeça aquele visual clássico dos anos 80. Beco escuro, chuva, neon piscando e corpos sintéticos. É um retrofuturismo quase anacrônico. A gente adora, claro, mas às vezes parece que o "punk" se perdeu no meio de tanta nostalgia. E é exatamente por prometer resgatar esse low life atualizado que a premissa de SPINE me deixou pilhado. Em vez de colocar a gente pra hackear terminal num quarto escuro, a Nekki levou o jogo pra rua. Tensor City é uma metrópole controlada por uma IA autocrática, e a gente é jogado na pele da Redline, uma grafiteira. E é aí que a coisa começa a ficar interessante. A contracultura em SPINE não é só uma roupagem estética; ela dita a mecânica. No meio de um combate gun-fu frenético—que me lembrou muito a fluidez de Remember Me, só que infinitamente mais cinemático—a Redline usa lata de spray pra cegar inimigo. O parkour transforma os obstáculos da cidade em uma extensão da porradaria.
Se a gente puxar pro design urbano, isso faz todo o sentido. O parkour e o grafite são as formas mais puras e viscerais de resistir à arquitetura hostil. Henri Lefebvre (enri lefev) já falou sobre o ‘Direito à cidade’, uma teoria que defende que: o espaço urbano não tá ali só pra ser consumido ou atravessado, ele tem que ser apropriado e transformado pelas pessoas. E isso me lembra também, por exemplo, como a Espanha mudou a relação de outra resistência, que é o skate, com o espaço urbano, deixando de lado a arquitetura hostil pra criar as Skateplazas, que integra o skate no design das praças e alguns edifícios.
Numa distopia onde uma IA hiper-racional dita o fluxo de tudo, pichar uma parede ou saltar por espaços que não foram planejados pra isso não é só estilo. É, literalmente, uma transgressão. É uma herança muito maneira de jogos como Jet Set Radio e Mirror’s Edge.
Enquanto a gente viu Cyberpunk 2077 dar os primeiros passos ao jogar a distopia debaixo do sol do meio-dia, que foi algo muito legal, SPINE me parece atualizar o gênero de novo, devolvendo o espírito punk ao ‘low life’ do cyberpunk, trocando a melancolia por uma transgressão ativa, de movimento puro. E no fim das contas, numa era de controle digital praticamente absoluto, e quase paralelo a nossa realidade, vejo que um dos atos mais poderosos de rebeldia é literalmente sujar a cidade com a sua própria identidade.