Mídia física + identidade

27 Set 2026

Já pensou nas coisas que você tem e o que elas dizem sobre você? Não é só coincidência, Jean Baudrillard dizia que a nossa relação com os objetos está além da utilidade e se baseia em uma troca mais simbólica. Eles nos representam, nos ancoram e constroem a nossa identidade. A coleção de jogos que tu tem na sua estante, por exemplo, não é só um catálogo, é uma autobiografia. Cada jogo carrega uma memória afetiva sua, algo sensorial. Desde o momento da compra, a primeira experiência, o cheiro abrindo a caixa, a embalagem. O objeto físico nos dá esse senso de realidade, de pertencimento, e que de fato algo aconteceu e existe no mundo.

E não é à toa que tanta gente tá voltando pra câmeras analógicas, CDs, PSPs e criando cyberdecks. Isso não é nostalgia, mas um sintoma de uma falta real, uma falta de possuir algo de verdade. E a decisão da Sony de encerrar a mídia física a partir dos próximos anos é só um anúncio oficial que a indústria já vinha construindo há muito tempo, e em silêncio. Um cenário onde o digital nunca foi posse, é uma licença que não está sob o nosso controle e que pode ser revogada, e vão fazer isso, sem aviso, sem reembolso, sem explicação. O objeto some e o que fica é só a consciência de que você não tinha nada. O que acontece quando isso se normaliza é que a indústria passa a controlar não só o que você acessa, mas o que vai existir amanhã e o quanto você vai pagar por isso. Quem decide o que sobrevive não é mais a cultura, é um contrato. E sem a mídia física como alternativa não sobra saída dentro do sistema, a não ser fazer o que eles querem.

É um pouco incerto como tudo vai se desenrolar, mas existem resistências crescendo, que claramente não estavam nos planos das corporações, ou que começaram a incomodar. Colecionadores acelerando compras físicas, comunidades organizando arquivos, gente debatendo preservação digital como se fosse urgência, e é. O problema é que a indústria também enxergou esses movimentos e está usando a escassez a seu favor. Edições físicas viraram raridade e produto de luxo, relançamentos estão super caros e a mídia física que sobra no mercado custa cada vez mais, não por ficar caro de produzir, mas por virar um objeto de desejo controlado. É uma forma de manipulação elegante, que tira o acesso fácil, deixa uma saída cara e torce para que a maioria das pessoas aceite uma assinatura como opção viável. Mas se não tem forma legítima de acessar um conteúdo, nós vamos encontrar caminhos. E foda-se. Esses caminhos têm diferentes nomes, mas eu acho que pirataria já não cabe mais pra esse momento. Mas a gente vai falar sobre isso depois.

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