Nujabes + Hip-Hop
27 Set 2026Nujabes? Então vamos nessa! Sempre que eu penso no som do Nujabes, eu não consigo parar de pensar também nos encontros interessantes que existem entre a cultura oriental e afro. Pra quem não sabe, ele também era dono de loja de discos em Tóquio e estava constantemente em contato com a importação de vinis, de jazz afro-americano e também de hip-hop. Ele absorveu essa cultura do remix e também do sampling, que era a espinha dorsal do hip-hop dos anos 90, e reimaginou esses recortes em novos contextos. A batida agressiva do boom bap foi fundida com o minimalismo oriental e a intensidade do rap foi dissecada e reestruturada nesse flow marcante que expressa emoções introspectivas e gera essa experiência relaxante e estranhamente desacelerada que a gente reconhece hoje como lo-fi, hip hop e também chill hop. Definitivamente o ápice desse encontro conceitual foi na trilha sonora de Samurai Champloo.
Isso fica ainda mais interessante quando a gente pensa numa galera que, do outro lado do mundo, enquanto o Nujabes experimentava com a cultura afro, eles estavam experimentando com a cultura oriental. A galera do Wu-Tang Clan cresceu consumindo filmes de Kung-Fu que eram exibidos nos cinemas de bairros onde a cultura preta se concentrava. Essa galera se identificava com temas desses filmes, onde haviam heróis de minorias que usavam disciplina e força bruta pra combater esses temas que eram opressores, dialogando diretamente com a luta diária contra o racismo estrutural dos Estados Unidos. E a influência não foi só na música, mas também no cinema. É só pensar, por exemplo, em Shaft ou Fox Brown and Coffy, mas com o Wu-Tang Clan a disciplina foi aplicada à criatividade, os punhos eram um instrumento e a força se tornou a voz. As referências e as metáforas do Kung-Fu estavam em todo lugar: nas letras, nome de álbuns, de músicas, na estética visual, nos samplings que traziam melodias e recortes de diálogos de filmes e principalmente na habilidade lírica.
Assim, o jazz e o hip-hop deram à juventude asiática uma linguagem para expressar a rebeldia, enquanto as artes marciais e a filosofia oriental deram à juventude preta uma linguagem para refletir e transformar a disciplina e novas formas de resistir. Eu acredito também que uma máxima desse encontro seja Afro Samurai, que é um anime criado pelo artista Takashi Okazaki, claramente influenciado pelo hip-hop e a cultura soul, e tem como protagonista um samurai negro, dublado pelo Samuel L. Jackson, e a trilha feita por ninguém menos do que RZA, que é o líder produtor do Wu-Tang Clan. Isso é no mínimo interessante, vai dizer?