O maior erro de Cyberpunk 2077
27 Set 2026Deixar a Hanako esperando mais um pouco. Se você já jogou Cyberpunk 2077 sabe o que isso quer dizer, a gente vai adiar o final do jogo indefinidamente e rodar Night City enquanto a V tá tecnicamente morrendo. A gente vai curtir cada pedaço desse mundo distópico que é hipnotizante antes de deixar a história acabar. Eu fiz isso algumas vezes, e muita gente fez, e por mais que pareça maneiro, eu não consigo parar de pensar o quão contraditório é isso no jogo.
V carrega o Relic, que é um chip fudido que tá na cabeça dela, que tá apagando a sua consciência e substituindo pela do terrorista e roqueiro Johnny Silverhand. Na teoria, o médico dá apenas algumas semanas de vida, algo como um mês pra ela. E o jogo te empurra isso com um peso, com um cuidado narrativo e seriedade que, de fato, você sente. Então surge Night City na sua frente pra ser explorada, mas sem o limite de tempo. E é isso. Você pode ter centenas de horas de jogo antes de encarar o final da história e, em nenhum momento, o tempo é um problema vital que parecia ser. Essa ruptura entre o que a narrativa diz e o que a mecânica permite pode ser chamada de dissonância ludonarrativa. E nesse jogo ela é enorme. V pode passar semanas desenrolando trampos, metendo o louco em missões suicidas, modificando o corpo, e a destruição que era prometida pelo Relic parece sequer ser um problema. A urgência não existe e é apenas uma nota de rodapé ou um sentimento que V reclama o tempo todo, mas nunca é uma parte do sistema.
E é curioso também como esse jogo cria esse espaço suspenso entre a vida e a morte de V, onde a gente habita sem pressa. As missões secundárias não têm relação com a sobrevivência e não são justificadas pela condição de V, nem aceleram ou retardam o fim. Fica claro que existe uma experiência paralela à narrativa principal, onde o Relic é coletivamente ignorado. E é nessa falha, nessa suspensão, que o jogo, pra mim, perde de ser ainda mais imersivo, mais interessante e mais impactante. Deixar a Hanako de molho não é uma negligência do jogador, mas deveria. É só uma recusa de deixar o mundo acabar, acompanhado da segurança que o jogador tem de que ele não vai acabar mesmo. E Night City também se torna esse lugar de saturação e melancolia que tem mais valor justificado por si mesmo do que pela narrativa. Definitivamente, eu acho que o maior erro em Cyberpunk 2077 é o que torna a experiência tão preciosa, mas não dá pra negar que ela poderia ser muito mais interessante.