Quando as capas de jogos eram arte e não thumbnails

27 Set 2026

Teve uma época em que você comprava o jogo pela capa, às vezes era muito louca, mas isso também era interessante. Em tempos de design de thumbnail, é quase nostálgico pensar que as capas já tentaram contar histórias e eram também peças de arte. A capa de ICO no PlayStation 2, por exemplo, é quase uma pintura metafísica e o próprio diretor Fumito Ueda se inspirou em Giorgio de Chirico pra criar essa imagem de dois personagens correndo por uma arquitetura monumental, como se se perdendo em um vasto mundo inabitado. Apesar de um jogo incrível, a capa não era uma representação estética ou da narrativa, mas claramente da atmosfera que existe em ICO. Yoji Shinkawa transcende em Metal Gear Solid. O seu trabalho com tinta preta e fundo claro é tão vívido e carregado de movimentos que estampou a capa de alguns jogos da série. As artes parecem inspiradas em pinceladas de obras clássicas japonesas, principalmente com aquarela, e adiciona um certo caos visual pra beleza do trabalho, precisamente um equilíbrio curioso que dialoga com Metal Gear. Até mesmo o queridinho da Nintendo tem capas interessantes. A partir do Super Mario Bros do Wii U, as capas do encanador, elas começaram a explorar mais e mais o caos que existe na série, com várias coisas acontecendo ao mesmo tempo, nossos heróis avançando na jornada e cenários super convidativos. Uma estilística bem caricata e bem divertida.

Esses são apenas alguns exemplos de como a arte de capa tenta sobreviver quando estamos constantemente passando os olhos por catálogos com personagens centralizados em frente a uma explosão ou qualquer coisa borrada. Não digo que Ghost of Tsushima, The Last of Us, Remember Me e tantos outros não sejam tecnicamente bonitos, mas a identidade está claramente esgotada. São capas seguras, objetivas, um design de apagamento, onde quanto menos ambiguidade melhor e quanto mais eficiente, mais seguro. Eu vejo muito desse efeito do thumbnail atrelado ao fato de não darmos mais tanta importância ao material físico e a ausência do mistério que se dilui com tantos spoilers que a gente tem o tempo todo sobre o jogos que a gente nem chega a jogar, pois horas depois do lançamento já tem vídeos falando sobre o final.

Segurar uma caixa de jogo, virar, ler a contracapa era um exercício de contemplação e, de certa forma, uma boa expectativa. Alguns jogos ainda resistem e se arriscam, mas existem apesar do sistema e não por causa dele. Mas e aí, alguma capa já te pegou antes de você saber o que era o jogo?

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