Quando jogos são mais do que jogos
27 Set 2026Os jogos digitais não são apenas jogos, e não me refiro ao quão pulsante as formas de arte que compõem os jogos têm se tornado, mas como outras formas de expressão têm usado os jogos como uma plataforma. Em 2024, comecei a pesquisar jogos digitais no mestrado e descobri um projeto chamado The Alluvials, que é uma obra audiovisual e também um jogo que explora a escassez de água em Los Angeles do futuro. A artista e pesquisadora Alice Bucknell criou esse trabalho para refletir sobre um futuro possível e incentivar um pensamento crítico sobre uma situação que é muito real. A relevância foi tão grande que a obra circulou por várias galerias e museus e em 2025 foi adquirida pelo Museu de Arte Moderna de São Francisco, se tornando o primeiro videogame a entrar na coleção permanente do museu. O que a Bucknell faz é usar motores de jogos como artistas usam tela e tinta, não para criar entretenimento, mas para investigar ideias, como ecologia, políticas e formas como humanos e não humanos coexistem. Em Earth Engine, também dela, o jogador vira um NPC e a Terra se torna o personagem principal moldado por dados climáticos reais. O planeta se torna um agente. É um tipo de imersão que só é possível dentro da linguagem dos jogos e que diz algo sobre o mundo que nenhum outro meio conseguiria.
Do outro lado a gente tem It Island, que é um documentário machinima gravado dentro de DayZ. Os diretores usaram técnicas de cinema para capturar e entrevistar jogadores e também para registrar uma comunidade que simulava uma existência bem real dentro desse espaço virtual. Super premiado, esse é um filme que força a gente a observar o nosso próprio comportamento dentro e fora da virtualidade. E antes disso, Marlowe Drive já tinha sido gravado dentro de GTA V, que é uma narrativa super cinematográfica com uma pegada lynchiana que inspirou vários artistas a explorarem mods em jogos do mundo aberto pra criar suas próprias histórias audiovisuais. Mais recentemente, Grand Theft Hamlet transformou GTA Online em um palco e reuniu uma galera de jogadores aleatórios pra encenar Shakespeare, transformando o avatar em ator e em um experimento social que parecia que ia dar bem errado e era improvável.
Tem incontáveis criações que colocam os jogos em outro lugar, experimentação, crítica, propaganda, simulação, comunidade. E eu ainda quero falar mais sobre o gênero machinima, mas por agora eu só queria deixar uma provocação, que eu sempre ouvi discussões sobre os jogos serem arte ou não, e eu acho que isso já não é mais a questão, mas sim, o que é que os jogos ainda não conseguiram ser?