Sobre adaptações - The Matrix

05 Out 2026

Transformar um jogo em filme ou série parece a coisa mais lógica do mundo. Tu já tem a franquia, os fãs, a narrativa. Mas o que mais tem por aí são projetos que deram muito ruim. Pense em Assassin’s Creed, Borderlands, Resident Evil e mesmo The Last of Us. Todos falharam de forma diferente, mas sempre pelo mesmo motivo: trataram a obra original como uma simples roupagem.

Um elenco de peso pra atrair um público amplo não significa nada se a comunidade que já consome aquele universo não se sentir parte do que está acontecendo. As adaptações recentes que realmente deram certo, como Fallout ou as animações de Castlevania, entenderam que a prioridade é servir a base de fãs primeiro. Eles não tentam fazer uma repetição cena por cena, pois essa experiência pertence à fonte, mas sim capturar a vibe, expandir o lore que já existe e dar mais sentido e profundidade pra obra.

Quando penso nisso, eu gosto muito de voltar um pouquinho no tempo e olhar pra Matrix e também pra como Henry Jenkins observa isso na Cultura da Convegência, onde ele aponta como a transmídia se desdobra em múltiplas plataformas, e cada ‘texto faz uma contribuição distinta e valiosa para o todo’, e aí tá a palavra-chave: distinta.

O que as irmãs Wachowski fizeram foi exatamente isso. Antes dos filmes rodarem, já existia um ecossistema gigantesco arquitetado pra isso. A trilogia (não vamos falar Resurrections, okay?) nos mostrava a jornada fudida de Neo, havia uma série de animação inteira, Animatrix, nos apresentando como o mundo desandou e as tretas com as máquinas começaram, e outras nuances que os filmes não tocam. O jogo Enter the Matrix, por exemplo, te coloca na perspectiva de Niobe e do Ghost em eventos cruciais que se desenrolam em paralelo com Reloaded. Existem também diversos quadrinhos e contos que abordam outras perspectivas tanto do mundo real de Matrix quanto da simulação, como A Life Less Empty do Ted McKeever que mostra uma breve história de Tiera que encontra Morfeu, mas escolhe a pílula azul e não a vermelha.

Cada pedaço desse universo de Matrix existia por si só, de forma autônoma, mas quando você consome, aos poucos, a complexidade desse mundo acaba se expandindo de uma forma muito prazerosa. Não é apenas uma extensão comercial, mas uma narrativa se estendendo por diferentes formas, ainda contando uma mesma história.

A grande diferença entre a transmídia que falha e a que fica foda é simples: uma trata o universo da obra como um produto pra ser fatiado e vendido. A outra constrói de fato um mundo pra gente mergulhar e habitar; pois é isso que a gente quer. Mas e aí, qual adaptação você acha que fez algo maneiro de verdade com o material original?

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