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Deixa eu te falar que sempre odiei filosofia. Isso é… no mínimo irônico. Eu sou o tipo de pessoa que filosofa até mesmo com as coisas mais ordinárias, mas talvez todo o pensamento parta do ordinário, e você pode até sentir empatia por essa característica, pois é um fragmento da representação do meu comportamento.

Carl G. Jung viajava muito nisso, não à toa os estudos sobre arquétipos, principalmente na psicologia, partem dele. Na verdade, a construção de todo personagem acaba assumindo valores de um arquétipo, pois carregam, em algum ponto, padrões reconhecidos pela consciência coletiva, ou seja, nos dá pistas sobre o papel da personagem, como uma heroína ou vilã. É, o buraco é mais embaixo, mas, vamos tentar…


Sendo cru, sabe quando você está assistindo um filme ou lendo um livro e sente empatia, uma identificação com a personagem, isso são valores que fazem parte da nossa cultura e são ativados na nossa mente e cria relações, padrões reconhecidos por toda a humanidade, entre características da personagem e as suas. Marcel Proust dizia que todo leitor é um leitor de si mesmo, faz mais sentido agora, não é?

Então, esses valores, esses alicerces da configuração humana que se desenvolveram e consolidaram durante toda a nossa existência, foram estudadas, mastigadas e é o que conhecemos como arquétipos, como proposto por Jung. É engraçado, pois, quando paramos para refletir sobre arquétipos, é possível notar que são respostas automáticas, afinal, você não fica pensando sobre como a característica de determinada personagem se encaixa na sua pessoa, você apenas identifica a conexão, são atalhos que o cérebro toma, poupando tempo e energia.

Você é vilã ou heroína… maga ou guerreira… opa! Chegamos finalmente em Hawkins, lar doce lar de Stranger Things. O estudo desses padrões não são apenas acadêmicos, há anos os arquétipos são estudados em outras áreas, para definir comportamento de público, configuração de produtos e estratégias de marcas, além de outras infinidade de coisas… e também para criar histórias que, com certeza, irão te tocar. É, Stranger Things possui, não apenas um, mas vários aspectos que deixam explícito como não é apenas um roteiro emocionante, mas um estudo aprofundado e com timing perfeito para surfar na onda do gap criativo da humanidade.


Esse gap não se trata da falta de criatividade, mas, não querendo colocar nome em bois, é perceptivo como estamos vivendo mais a nostalgia do que a aspiração. Temos o synthwave que se enraizou na cultura de hoje a ponto de quase tornar indistinguível o presente do passado em determinadas artes, The Weeknd dominou o mundo áudio e visual com Blinding Lights, basicamente um tributo aos anos 80, Cyberpunk 2077 chegou - confundindo a galera -, mas trazendo de forma brilhante muitos aspectos do futuro imaginado em sua construção e nos conceitos trabalhados ao longo dos anos por Mike Pondsmith, e sem falar de tantas outras referências dos anos passados. Se formos tratar o gap de forma pragmática, fica a pergunta, se hoje vivemos o cyberpunk que era imaginado anos atrás, qual é o cyberpunk que imaginamos anos no futuro. Bom, quando passar a vibe do old school, quem sabe vamos especular mais sobre isso.

As referências da cultura pop em Stranger Things são escancaradas, mas dão ainda mais originalidade à série… podemos chamar assim, originalidade; partimos da ideia que tudo se transforma, e ela se alimenta dessas referências. Hawkins e toda a trama que se desenrola na série, serve como palco, ou calabouço, para nossos pequenos aventureiros. Se olhar de outro ângulo, além dos arquétipos, também é bem delineada a jornada do herói ou o monomito, de Joseph Campbell, que é uma proposta acerca do formato de narrativas que expõe o padrão na jornada da figura protagonista de uma história. Mas não vamos nos aprofundar nisso agora. Voltando ao calabouço ou Hawkins, nosso destemido - ou nem tanto - grupo de heróis vem ao longo de quatro temporadas explorando suas características e refletindo os arquétipos, principalmente quando empregados dentro do RPG, Role-Playing Game, que é um estilo de jogo de fantasia e interpretação, onde cada jogadora assume uma personagem e toma decisões em uma aventura em grupo, como vemos os garotos jogando no porão de Mike na primeira temporada.


Não apenas é legal ver como acontece na partida deles, onde cada um tem uma personagem no jogo, como também eles fazem jus aos valores delas na vida das suas personagens da série. Na quarta temporada, Will referencia Mike como o coração do grupo, ele também é o Mestre das Masmorras em Dungeons & Dragons, responsável pela organização da estrutura e narrativa do jogo, mas mais do que isso, ele é o elemento essencial que mantém o grupo, no jogo, seguindo em frente. Na série, a referência de Will para Mike reflete bem essa característica de sua personagem em D&D, podendo ser visto como o herói de Jung ou um paladino, que está em busca da justiça, da proteção dos valores. 

Will, por sua vez, é aquele que tem as visões do mundo invertido, uma de suas qualidade é seu senso de responsabilidade para com quem está próximo e o mundo, e também um pouco de astúcia, pois apesar de seus traumas, ele sobreviveu sozinho no mundo invertido, sua personagem em D&D é um mago e também corresponde bem se formos caminhar pelo olhar Junguiano. Lucas e Dustin são dois personagens curiosos, apesar de Lucas ser um cavaleiro em D&D, suas atitudes ficam em cima do muro, é um tanto quanto complicado definir por completo, pelo fato dele ser um dos personagens que mais expressa a transição da sua maturidade, talvez ele possa ser o Rebelde. Dustin, Anão em D&D, por outro lado, é o engenhoso, qualidade da sua classe no jogo e também do arquétipo de Criador.

É possível considerar vários pontos curiosos sobre cada personagem, mas um arquétipo sempre responderá mais objetivamente para suas qualidades. Podemos também experimentar a ponte entre os valores com A Caverna do Dragão, conhecida inclusive no mundo como Dungeons & Dragons, que nos apresenta personagens que refletem perfeitamente determinados arquétipos, de Jung e de RPG. Como seria colocar Will na pele de Presto, o Mago? Quem sabe Max como Bobby, o bárbaro?

Falar sobre arquétipos e RPG é interessante, pois nos permite observar de maneira mais ampla o comportamento das narrativas, indo além, no cinema, literatura e outras mídias, assim como serve de ferramenta para tantas outras coisas.


Por fim, segue alguns links interessantes 🔗

In the dugeons! // Fragmento dos atores jogando D&D no Sneak Peak da segunda temporada de Stranger Things.
Pedra, papel e tesoura // Link maneiro com mais curiosidades sobre Jung e os arquétipos.
Meio fora da curva // Um pouco diferente, mas achei interessante esse post sobre similaridades entre ST e The OA com base em arquétipos.
Intertextuality // Vídeo HARDCORE do canal Just Write onde é falado sobre intertextualidade e como isso constrói a beleza e incontáveis referências em Stranger Things, é pesado, se prepara!

Obrigado por estar aqui e até a próxima.

Câmbio e desligo.