Eu estava sozinha em meio a quase total escuridão, imaginei que até os carniceiros me encontrarem daria tempo de correr para a escadaria de saída do metrô. Respirei fundo, ainda ouvindo os malditos avançando, então corri, e corri, corri o mais rápido que pude, com toda a força que me restava. A luz da saída estava próxima, avancei alguns metros e ela tornou-se mais forte, eu já podia ver o verde raso da vegetação que invadira aquela lugar durante os anos de abandono, assim como possuía a cidade toda.
A luz se intensificou, uma faísca de esperança acendeu em meu peito, mas quando virei o corredor, dei de frente com outro grupo de carniceiros que até então estavam em hiato, aguardando um estímulo, e eu fui o estímulo. Ao ouvirem meus passos e meu gemido diante do susto, eles despertaram, em uma crise louca e enraiveceram, tropeçaram um sobre o outro e avançaram em minha direção.
Apertei o caco de vidro em minhas mãos até sentir minha pele rasgando, com um sabor de medo e ódio entre os lábios, senti a morte repousando as mãos sobre meus ombros, pude até ver seu sorriso frouxo e inescrupuloso. Fitei as criaturas avançando, famintas, e pensei:
"É assim que termina?"
Levei o caco próximo ao meu pescoço, enquanto observava eles se aproximando, sabia que aquilo seria o fim, e eu preferia tirar a minha própria vida a ser transformada em uma daquelas criaturas grotescas. Suspirei e respirei fundo, e quando lancei o golpe contra mim mesma, com o primeiro monstro a poucos metros de mim, fui surpreendida quando a cabeça dele simplesmente se partiu ao meio, e um zumbido fino e quase imperceptível cantou próximo ao meu ouvido, o corpo desabou e escorregou até meus pés, formando uma poça de sangue enegrecido e malcheiroso. Em choque, observei o corpo imóvel diante de mim.
Meu coração disparou enquanto minha mente tentava digerir aquilo. Um assobio ecoou por todo o ambiente e a atenção de tudo e todos foi tomada por uma imagem estática sobre o topo da escada, uma silhueta. Ela se deslocou rápido, pulando sobre o corrimão, escorregando, e sumindo no meio do grupo de monstros. Logo pedaços de corpos e sangue começaram a ser arremessados para todos os lados. Um zumbido de lâmina cortando o ar tornou-se intenso, em questão de minuto o sol pontou sobre a escadaria, e seu raio cegou-me, levei o braço sobre os olhos, me protegendo e tentando enxergar o que estava acontecendo.
Vi a silhueta de corpos sendo despedaçados com golpes brutais, o sangue amaldiçoado pintava as paredes como pinceladas despreocupadas e caóticas, o cheiro de podridão criou um misto estranho quando os ossos começaram a se partir, assim como o queimado do piso a cada vez que a lâmina deslizava por ele e rasgava um corpo ao meio. O guerreiro se esquivava de todos os golpes que lhe eram direcionados, suas vestes longas desenhavam uma dança deslumbrante no ar, com movimentos que pareciam suaves, destemidos e com graciosidade, e assim com uma muita agilidade ele respondia com ataques fulminantes. Gritos roucos dos monstros sendo eliminados ecoavam de forma seca e única, dando um ar de terror maior à cena.
Quando me dei conta, um silêncio repentino se instalou, o sol foi ofuscado e uma sombra parou à minha frente. Abaixei o braço e flagrei um nômade, vestido de um cachecol grosso, um casaco longo e escuro, com uma das mangas ausentes, em seu punho havia um tecido enrolado até o cotovelo, ele carregava duas espadas brilhantes, cintos estavam envolto à sua cintura, e um coldre suportava uma pistola presa em sua perna.
Ele lentamente embainhou uma das lâminas, levou a mão sobre a cabeça e puxou o capuz que vestia. Flagrei sua face imponente, com um olhar de curiosidade, olhos grandes e verdes como uva, lábios roxos e queimados pelo frio, a pele negra como a noite e uma barba rala e grisalha, assim como o cabelo. Ele enfiou a mão no bolso e dele tirou um pacote, pequeno e colorido, estendeu a mão com o pacote em minha direção.
— Pegue — disse ele. — Coma — finalizou em um tom estranhamente imperativo, mas amigável.
Peguei o pacote, quando mais criaturas apareceram atrás de mim, ele puxou-me para trás de seu corpo, sutilmente me guiando pelo ombro. Desembainhou a espada e olhou para o lado, sorrindo. Passos largos e longos, seu corpo se chocou contra a onda de criaturas. O nômade empurrava algumas enquanto golpeava e disparava ponta pés em outras, com o prazer no olhar e nos movimentos, como se estivesse gostando do que estava fazendo.
Ele golpeou alguns monstros e embainhou as espadas, então puxou duas lâminas menores de sua cintura e atacou de forma ainda mais feroz, abraçando e levando ao chão dois ou três inimigos por vez, rasgando peles e gritando em ataques de fúria e brutalidade. Quando os últimos foram abatidos, ele levantou-se, imponente e com sangue alheio escorrendo de sua face, suas vestes e suas lâminas...